Viagens imaginárias
Luis Fernando Verissimo
Prepare-se. As fotografias não fazem justiça a Titã, a lua de Saturno. Sua primeira surpresa será na chegada: Titã é cor de beterraba! Imagine-se pisando numa enorme beterraba gelada. Foi o que eu senti o tempo todo. Tudo tem cor de beterraba em Titã. Não sei que cor terá a beterraba. Mas não há indicio de vida na lua de Saturno e duvido que existam legumes. Na verdade não tem nada para comer em Titã. Nada para fazer. Nada para ver, a não ser vastos espaços gelados, cor de beterraba. Dizem que Titã é como era a Terra antes de surgir a vida orgânica. Especula-se que a vida na Terra começou assim, com a visita de turistas de outro planeta. Com as bactérias do lixo deixado por visitantes do espaço na beira de um rio de lava. Todas as espécies terrestres descenderiam de um piquenique. Tome cuidado, portanto. Quando limpar a meleca do dedo numa pedra de Titã, você pode estar começando uma civilização.
Afinal, Titã vale ou não vale uma visita? Sim e não. É longe, e a viagem é cara mas só quero lembrar o seguinte: Titã é uma lua de Saturno. O que significa que, para todos os efeitos, Saturno é a lua de Titã. Saturno e seus anéis ocupam metade do céu de Titã, quando saem.
Cotação. Comida: zero. Divertimento: zero. Atrações culturais: zero. Cartões de crédito: nenhum. Natureza: cem.
Uma dica: leve roupa quente. A temperatura pode chegar a menos 300, mas você não vai querer perder as noites de Saturno cheio.
LAMENTAÇÕES
Estive em Jerusalém e fui ao Muro das Lamentações. Vi um velho judeu que batia com a testa contra o muro e dizia: “Oi, os cristãos, oi os cristãos”. Como ele estava se machucando, ponderei que não havia mais tanta intolerância entre cristão com judeus, que até o papa já pedira perdão pela perseguição histórica etc. E que ele podia parar de bater com a testa no muro e se machucar. Ele nem me olhou e continuou batendo com a testa no muro, agora dizendo: “Oi, os muçulmanos, oi os muçulmanos” e eu ponderei que não fazia sentido ele se punir porque existiam muçulmanos radicais, ou qualquer pessoa se automartirizar daquele jeito por qualquer motivo ou fé. Ele nem me olhou e continuou batendo com a testa no muro, agora dizendo “Oi, os racionalistas, oi, os racionalistas”.
CRUZEIRO
Assim que chegamos na cabine, levados por um simpático rapaz (filipino? cearense?) a Luana vestiu o biquíni e foi procurar uma das piscinas. Eu fui explorar a interior do navio. Suas dimensões são realmente impressionantes: levei quatro dias para encontrar o caminho de volta à cabine. Só então fiquei sabendo que a Luana tivera um acidente na cascata artificial entre as piscinas do Deck Maraviglia e do Deck Stupendo, torcera o pé, fora atendida por um médico (italiano? grego?) que lhe propusera casamento mas já estava boa e, inclusive, inscrita na maratona do dia seguinte, duas voltas inteiras no Deck Bravíssimo, competindo por um BMW. Naquela noite jantamos num dos 17 restaurantes do navio, comida sueco-napolitana, com direito a show do Frank Sinatra, ressuscitado especialmente para o cruzeiro, e depois fomos olhar as estrelas. No planetário, pois não havia lugar nos decks, ainda mais com os campeonatos simultâneos de hula-hula e “celebrity jiu-jitsu”. O concerto do dia seguinte, da Filarmônica de Berlim, foi entre o café e o lanche da manhã. À tarde, depois dos blinis com caviar e antes do bufê de lagostas nas piscinas, o Circo de Moscou. Enquanto Luana corria na maratona, fui para a sauna, onde a atração era os três tenores cantando completamente nus. À noite, jantar no bistrot L’Intime, penumbra gostosa, pianinho simpático (Brad Meldhau) – e cama. Luana e eu sabíamos que o dia seguinte seria muito especial: o navio zarparia.
Avaliação: altamente recomendável. Só uma observação: tente evitar a comida. Não é que seja ruim, é demais. Não só há 12 refeições por dia, sem contar os lanches entre uma e outra, como Luana e eu éramos constantemente acordados no meio da noite por um dos chefs sentado na nossa cama, com um espetinho ou uma tigela na mão, dizendo “Vocês precisam provar isto”.
Domingo, 23 de janeiro de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.